irmã.

07-03-2025

irmã.

28 de setembro de 1992. O dia em que eu nasci. E desde o momento em que o destino me colocou no caminho da vida, escreveu também que eu nunca estaria sozinha. Ditou que no aconchego do ventre materno, eu iria saber o significado de partilha. E ali, numa troca constante de fluídos que nos ligavam perpetuamente à nossa mãe, criaram-se duas vidas, numa tentativa de espelhar o que nunca poderia ser espelhado. E, assim, a vida desdobrou-se, mesmo que, por vezes, a minha parece fundir-se com a da minha irmã gémea. Durante a minha infância, as minhas experiências foram constantemente partilhadas com a minha irmã. O que intensificava uma união que não precisava de mais motivos para se entrelaçar, mas que mesmo assim continuava a crescer, rejeitando qualquer traço de personalidade que por vezes se entrepunha na nossa união. Personalidades que timidamente iam aparecendo, tentando desprender-se e projetando individualidades que obrigatoriamente tinham de ser diferentes. Mas a diferença é difícil de aceitar quando o conforto da companhia de alguém que caminha a nosso lado se sobrepõe. A vida nunca será vivida de duas formas iguais, mas momentos houve em que eu senti que a minha estaria sempre ligada à minha irmã. Faríamos as mesmas coisas. Copiar-lhe-ia os passos. Vestir-me-ia de forma semelhante. Até as nossas amizades seriam as mesmas. A minha irmã sempre foi mais consciente do momento em que vivia, enquanto eu ansiava pelo que estava por vir. E nesta excessiva antecipação, procurava o conforto do lar, do aconchego, que nunca me largava, como uma sombra que era maior do que eu. Expandida. Ali estava a companhia das brincadeiras e das birras. Ali estava o exemplo que eu precisava, causando uma pressão extra em alguém que, como eu, tentava descobrir algum significado no simples ato de viver. Foi também com a minha irmã que me fui descobrindo enquanto mulher. Com ela tive as primeiras brincadeiras de bonecas, em que projectávamos naqueles objetos de plástico aquilo que desejávamos ser, que roupas deveríamos vestir ou que profissão gostaríamos de ter. Foi numa destas brincadeiras que a minha irmã, olhando para a sua primeira boneca, afirmou convictamente que iria ser médica. E a sua perseverança foi tão grande, que o destino foi traçado ainda antes de saber ler ou escrever corretamente. Nestas brincadeiras, também projetávamos que família teríamos e planeávamos o futuro, como se tudo fosse simples como uma palavra dita que, com a força na medida certa, se torna desejo. Em todos os meus planos de vida, a minha irmã teria de estar presente, sem necessitar de qualquer convite ou validação. No entanto, houve momentos em que eu senti alguma competição com a minha irmã. Na escola, onde ela era a melhor aluna, todos os anos, eu lutava para a acompanhar, mas fracassava continuamente, nem que fosse por décimas. Em casa, onde ela tinha especiais momentos de atenção pelas suas singularidades físicas ou pelas suas convicções tão profundas sobre o futuro, contrárias aos meus sonhos incertos de uma vida paralela àquela que me era esperada. E, nalguns destes momentos, a minha frustração fez-me entender o meu papel enquanto mulher. A luta constante pela perfeição, que nunca chegava. A competição cega contra quem amamos ou quem nos é semelhante. A necessidade de atenção e de validação perante todos os que me rodeiam. E nesta luta perpetua que imperceptivelmente se impôs em mim, foi também a minha irmã que me deu outra lição, sem ela própria se aperceber. Foi com ela que entendi que a nossa união será sempre mais forte do que as expectativas que outros projetam em nós. Uma união jamais quebrada, quer pela força do sangue que partilhamos, quer pela amizade que durante toda a minha vida foi alimentada. Eu e a minha irmã somos gémeas e sempre trocaram o nosso nome, mesmo que não sejamos parecidas fisicamente. Há quem diga que somos gémeas falsas, mas essa expressão retira a verdade do significado mais puro da minha vida. Ser gémea não vem só com o selo de irmandade, mas também com o de amizade, proteção e sensibilidade conjunta. Com o de aceitação e o de estar sempre perto, por mais longe que a distância nos tente separar. A 28 de setembro de 1992 eu nasci, assim como a Carolina, a minha irmã. A criança, menina e mulher que me ensinou a ser quem eu sou, ainda antes de eu me conhecer.

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