mulher.
Mulher. O
sangue escorre. E pulsa. Vive em ti. E a vida surge. De ti, pouco importa.
Desde que a vida surja. Chamam-te suja, mulher. O sangue que marca o caminho,
de todas as que te antecederam e das que ainda estão para vir. E tu vives, como
os outros querem que vivas. E tu sorris, porque dizem que deves sorrir. E em
silêncio, tu sofres, mulher. Sempre em silêncio. O abafo das palavras que
suplicam o embalo de um som ouvido, compreendido. Mas novamente te mandam
calar. E o sangue escorre. O sangue que leva a vida consigo. Mulher, que
aprendes a viver a vida pelos outros, e só depois por ti. Que o teu prazer seja
escondido, abafado e vivido como se não existisse. Sacrificas os teus desejos,
perante aqueles que te desejam. E tu acenas, mulher. É só mais uma vez. E a dor
que esmaga o pensamento, de quem se procura encontrar. De quem o sangue
escorre, da vida e da morte. Linha ténue onde te fazem cambalear. Mulher,
esconde-te de quem és. Enterra os teus sonhos. Deixa que o proveito dos outros
se exerça sobre ti. E o sangue escorre. A violência de uma natureza que jamais
perdoa a tua força. Teimosia que combate o ensurdecedor silêncio por onde te
fazem caminhar. E tu gritas, mulher. Grito que ecoa numa multidão de vozes de
sangue, para sempre caladas por quem te chamam de suja. Campo de batalha onde o
não soa a um talvez. E o talvez se transforma num sim. E tu sangras, mulher.
Por dentro comprime-se o teu ser para se encaixar no padrão que te é esperado. E
tu deixas de sangrar. Para uma nova vida se gerar. E o sangue, do qual te
chamam de suja, deixa de correr. O cordão umbilical do singular momento em que
se cumprem os teus desígnios. Para logo de seguida se romper. E tu voltas a
sangrar, mulher. O sangue que faz de ti suja. O sangue que te traz a promessa
que jamais será cumprida. De que tu, mulher, és dona do corpo que possuis. Das
terminações nervosas que procuram libertar-se a cada toque teu. Dos sentimentos
demasiado fortes que têm de ser ocultos. E tu escondes-te, mulher. Só mais uma
vez. E a violência crua, de quem te quer bem, faz-se ecoar no caminho que
fazes. De sangue. De força. E tu lutas, mulher. Por todas as que ainda vão
sangrar e por todas as que sangraram antes de ti. O sangue da vida, e da morte.
O sangue que pulsa em ti, que se liberta de ti, que faz de ti mulher. E tu
vives, mulher. Não suja. Não com medo. Na procura da liberdade que um dia se
vai sentir. E tu sangras, porque és mulher.
