não fui eu.

20-12-2024

Não fui eu.

Não, não posso ter sido eu.

Olho para ela, ali deitada...

E não consigo dizer o que aconteceu.

O sangue que se encontra nas minhas mãos não tem nada a ver com isso.

Não fui eu.

Parem de olhar assim para mim!

Olhem para todos os outros, mas não para mim.

Como posso ser culpada por algo que não me lembro que fiz?

Quando me apercebi, estava ali, caída.

Cada vez mais fria.

E o sangue escorria.

Não sei o que a atingiu.

Mas foi uma força maior do que eu. Tenho a certeza.

Caiu no chão e... o movimento do mundo congelou.

Num forte magnetismo que concentra todos os olhares num único espaço.

E estava ela... ele... e eu, ali. Todos no epicentro do acontecimento.

Ouvi murmúrios... pensei ouvir que a culpa era minha.

Mas não fui eu.

Eu mal a conhecia...

Só a vi duas ou três vezes.

Com ele.

Eu estava a passar por ali.

Vi-a, ao longe. A minha memória está turva. Não tenho a imagem bem clara.

Não apertem comigo.

Eu estou a tentar.

Esperem por favor.

Sim, ela estava algures por aqui.

Andava, apressada.

Enquanto passava, vi todos a olharem para ela.

Não sei o que foi, mas algo ferveu em mim.

Senti-me invisível perante aquela mulher.

Mas não lhe toquei.

Quando aconteceu, senti alguns olhares a dirigirem-se a mim. Olhares acusatórios.

Mas eu não fiz nada.

Não fui eu.

Não... ou será que fui?

Eu só fechei os olhos.

Deixei que tudo se passasse diante de mim.

Como sou culpada disso?

Vi-a, a caminhar, por entre as pessoas. Trazia um olhar carregado... talvez de fúria. Ou seria medo?

Não sei.

Lembro-me que o seu braço tocou no meu.

Mas não me viu.

Continuou a caminhar.

Estranhamente, desta vez, procurava algo.

E por momentos achei-a ridícula.

Como podia encarar tantos? Expor-se assim?

Nem se dignou a olhar para mim.

Sim, agora me lembro.

Passou por mim, mas o olhar traspassou-me. Nem me viu.

Depois olhou para trás.

Quase que diria que finalmente me viu.

Mas não. Olhou para lá de um horizonte que não consegui reconhecer.

Eu quase que desisti.

Ia virar as costas, mas um calafrio atingiu-me.

Viajei no tempo até ao momento em que a conheci.

Ninguém lhe era indiferente.

Sabia como ganhar a atenção de todos.

Sorria e falava alto... a vida parecia correr-lhe bem.

E atrás dela, vi-o.

Reconheci aquele que me fora familiar em tempos.

Mas havia algo de estranho ali.

Uma atração alimentada pela inveja que sugava de mim.

Mas isso não singifica nada.

Não fui eu.

Quando olhei para trás, vi-o.

Corria atrás dela.

A multidão ia-se afastando.

E ela gritava.

Mas ninguém a queria ouvir.

Só a olhavam.

Uma vez, há muito tempo, senti a força do braço dele.

Depressa o afastei.

Eu conhecia-o... é meu amigo.

Os olhos dele suplicavam qualquer coisa que fugiam à razão.

Queria que eu acreditasse nele.

Que não tinha sido ele.

Eventualmente cedi.

Nunca mais se falou disso.

Mas agora...

Não fui eu.

Quando finalmente a olhei, já não a conseguia ouvir.

E deixei-me cair... ainda a abracei, tentei chamar a vida até mim.

Mas não me respondeu.

Manchei as mãos de sangue.

Mas não é só dela.

Mas então, foste tu?

Sim, fui eu. Também fui eu.

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