o lugar de ninguém.

13-12-2024

Não sei de onde venho nem para onde vou. Estou presa a um movimento circular, lugar que pertence ao acaso, por sorte ou azar. Na procura da diferença, visito o que me rodeia. Crio expectativas e lanço-me às bocas do mundo, que me diz ter fronteiras fixas. Na curiosidade que ferve em mim, analiso cada traço das vidas das outras. Tento reconhecer laços no amontado de pessoas que me são estranhas. Andam por aí, mas ninguém as olha. Seres doutro mundo, sem morada fixa. Dizem serem ladras de um espaço que não lhes é seu por natureza. Vêm cá, olhar os maridos das outras, como se os enfeitiçassem com um poder inerente só delas. Estão cá, a trabalhar nos empregos das outras, como se os certificados perdessem valor pelo espaço que percorrem. E o mundo vai sendo estranhamente anunciado como tendo sido roubado. Erguem-se as bandeiras e ecoam vozes negras de repulsa por quem lhes é diferente. O grito faz-se ouvir. "Não venhas para aqui. Este não é o teu lugar." E eu encolho os ombros. São palavras que não consigo compreender. Interrogo-me qual é o lugar que me pertence, já que guardo tantos no aconchego da memória. Lugares que marquei como sendo meus, que com carinho são embrulhados num mundo só meu. Afinal, a vida é feita de lugares que são marcados pelos passos que dou. E se tivesse de escolher um só, teria de renunciar a partes de mim que jamais quereria esquecer. Coloco a bandeira dos sentimentos num sem destino de fronteiras quebradiças. O som das línguas que se fazem ouvir e sentir de formas únicas e diferentes. O calor das pessoas que diariamente passam por mim, invisíveis, até que um desfocar se torna um claro ponto de diferença. De curiosidade. E eu encontro-me no questionamento daquele ser diferente. Daquela mulher que se veste de forma tão diferente de mim. Daquela vida que traz um mundo todo dentro de si. E eu fico hipnotizada pela diferença, até que ela desaparece diante de mim. A certeza de que somos diferentes ecoa num fundo que tento contrariar. Mas o que faz de mim diferente? Uma vida que em parte não escolhi? E volto a observar ao meu redor. E vejo mulheres que trazem o peso da vida dos seus filhos consigo, que percorreram longos caminhos para chegar ao que me fora sempre dado. E percebo que as diferenças que se fazem notar estão escritas no peso de quem procura uma segurança que nunca lhes fora prometida. Que ainda agora percorrem as ruas com olhares relutantes pelo destino que ainda não conhecem bem como sendo o seu. E entre sorrisos tímidos, procuram olhares carinhosos de aconchego. Palavras simpáticas de acolhimento. Mas poucos são os que lhes dão a mão. Negam-se perante a diferença, uma qualquer barreira linguística que nem a sensibilidade lhes consegue chegar. E palavras sujas se fazem ecoar. Insultam-nas, como que condenadas por um crime inerentemente delas, sem escolha. E sem vergonha, desejam-nas, confiantes que lhes pertencem, como donos do pedaço do mundo que sempre pisaram. E, por vezes, elas cedem. Pesado preço da esperança da vida que lhes fora prometida. E eu vou fechando os olhos. Junto-me, como que num pacto que nunca foi assinado, a um acreditar nos mitos que se dizem ser a verdade. E aqui, neste pequeno espaço do mundo, encolho-me perante a realidade. Vejo que o que antes pensava ser meu, nunca realmente me pertenceu. Que o mundo é um espaço aberto que acolhe todas que o pisam. Na diferença. Não pelas fronteiras que demarcam o espaço que o acaso escolheu, mas pelas singularidades que se figuram perante cada traço verdadeiramente único em cada uma de nós. Os horizontes se abrem. As fronteiras caem. E o destino anteriormente ditado traça um novo caminho. A sintonia de línguas e culturas diferentes que se unem num espaço meu, nosso e de ninguém.


Mulher de 20 anos, a viver em Portugal. Os pais quiseram imigrar quando ela tinha 14 anos. Chorou ao saber que iria deixar os amigos de sempre. Bateu o pé. Mas os pais disseram-lhe: "É para o teu bem, vamos para um sítio seguro, vais ver." Quando chegou a Portugal, tudo era novo, as caras eram irreconhecíveis e a língua, sendo a mesma, soava-lhe de uma forma diferente. A cultura era mais fechada e tudo era novo. Foi de difícil adaptação, mas o caminho traçou-lhe um processo bonito. Foi conhecendo pessoas novas e criou laços fortes com quem achou que não iria identificar-se tão facilmente, por se lembrar daqueles que deixara para trás. No entanto, quando a sua família saía à rua, ameaças eram ouvidas. O mundo mostrou-se-lhe pouco bondoso. Às vezes é difícil de conhecer a verdade nas pessoas que estão tão próximas, mas distantes nas histórias que carregam. Combateu as ameaças com a certeza de que a situação de segurança precária de onde veio, em que vivia em constante medo e com os passos a serem calculados numa trajetória que nunca lhe era inteiramente sua, iria mudar. Sair de casa, sem medo, ainda que com a recordação e hábito que a incutem a estar sempre com os olhos atentos, desperta em si uma sensação incrível, que não abandonaria por nada. Os desencorajamentos que pode encontrar acabam por ser ultrapassados, porque em 6 anos, as situações que vivera esmagam a saudade dos tempos que antes foram.

Mulher de 23 anos, a viver em Portugal. Procurou buscar a qualidade de vida que os seus pais sempre sonharam. Segurança era uma palavra que ouvia constantemente, mas nunca pensou saber o seu verdadeiro significado. Corajosa, mudou de país sozinha. As dificuldades debatiam-se nela, mas a certeza de que este era o rumo que precisava para a sua vida, fizeram-na sentir que o mundo não é só uma bolha onde cada um se encontra, mas sim um eterno espaço sem barreiras. Qualidade de vida, segurança e liberdade são os marcos mais importantes que alcançou, trazendo-lhe um auto-conhecimento e amadurecimento inerentes ao processo de viver sozinha. Por vezes, enfrenta a saudade de quem está longe, o medo surge e a insegurança fala mais alto. Sente os olhares de estranhos a prenderem-se ao seu corpo e fica incomodada. Ouve termos que sexualizam o seu corpo curvilíneo e debate-se para os esquecer. Preocupa-se quando não tem as habilidades necessárias para fazer o mais básico e comum, como perceber todas as burocracias associadas ao preenchimento dos impostos no final do ano. Mas o tempo é seu amigo e encarrega-se de lhe mostrar que, com perseverança, as dificuldades são ultrapassadas. E a segurança da sua escolha faz-lhe sentir a qualidade de vida que sempre lhe fora prometida enquanto ser humano.

Mulher de 46 anos, a viver em Portugal. Imigrou quando teve oportunidade de vir estudar o que sempre quis, na expectativa de abrir mais portas ao seu sonho. Tem uma visão particular pelo mundo e gosta de se sentir abraçada e acarinhada, mas nem sempre os outros correspondem da mesma forma. O mundo é agitado e encontrou dificuldades acrescidas no seu processo de legalização. Encontra-se num país que torna os prazos apertados para abrir as portas que mais deseja. Mas, com persistência, ganha a um sistema que não é amigo das pessoas que são diferentes das que está habituado a receber. Apaixona-se pela nova cultura que a cada dia novo vai conhecendo e aprende a conviver com um novo povo, diferente daquele que chama de seu. Por vezes fica assustada, ouve histórias de violência que se perpetuam. Percebe que este não é um país tão seguro quanto pensava, principalmente em relação às mulheres. No entanto, com o pouco tempo que leva nesta nova aventura, percebe que as boas experiências são exponencialmente melhores do que o medo que lhe vai atravessando, pelos olhares que não a deixam passar despercebida pela multidão. E assim vai tentando ultrapassar o medo de ser diferente num país onde tantos lhe parecem iguais.


Mulher de 50 anos, a viver em Portugal. Embarcou na viagem da imigração pelo interesse de estudar num local diferente. Sempre teve a vontade de partilhar a sua cultura com o meio que a envolve. Como tem facilidade em aprender línguas, nunca teve dificuldades em se integrar. Já passou por outros países e o seu gosto de viajar faz com que ela se sinta bem, mesmo nas culturas que lhe são mais distantes, nunca se esquecendo de quem é verdadeiramente. Defende que, como seres humanos, somos uma multitude de experiências e sensações. É latina e percebe que sempre teve as portas abertas para explorar essa sua cultura própria em qualquer sítio por onde foi passando e conseguiu relacionar-se bem com qualquer pessoa que se vai cruzando. Sendo artista, consegue explorar facilmente um meio comum que vai unido pessoas, que as vai aproximando. E aí encontrou o local que a aceita e a abraça. Sempre aberta à mudança, não ignora os problemas de outros imigrantes com quem já estabeleceu contacto. Incomoda-lhe que existam diferentes tipos de imigração, que nem todos consigam os mesmos direitos que lhe foram dados a si. Sempre que pode tenta ajudar, e este contacto persistente com os outros, fazem-na ter força para lutar por um mundo onde todos possam ser vistos onde quer que queiram estar.

Mulher de 31 anos, a viver em Portugal. Mudou de país pelo seu forte desejo de viajar e de viver novas culturas, assim como aperfeiçoar uma língua que não era a sua. Dá o melhor de si em tudo o que faz, mas por vezes não a compreendem. Teve uma experiência negativa que a marcou: uma situação de trabalho em que foi humilhada pelo seu patrão em frente aos seus colegas, que pôs em causa a sua legalidade enquanto trabalhadora. Na verdade, o patrão tinha-lhe prometido um contrato, mas não aceitou a diferença que estava perante si. A burocracia problemática e a dificuldade de aceder a algo tão básico como habitação, saúde ou trabalho digno, faz com que se sinta receosa com o seu futuro. Tenta contrariar a desconfiança que surge quando as pessoas não a conhecem e combate os estereótipos que a perseguem. Mas com as suas experiências ganhou muitos olhares diferentes sobre o mundo e continua num processo eterno de aprendizagens. Percebe que a forma de ver cada situação é plural e complexa, variando em cada um de nós. Reconhece que cada lugar tem uma história e que a história do lugar vai moldando as pessoas que nele se encontram. E isso não a incomoda. Gosta de perceber as pessoas nesta forma particular e abraça cada história que a vai atravessando. 

Mulher de 47 anos, a viver em Portugal. Mudou-se há mais de dez anos, porque se queria unir à pessoa por quem se apaixonou à distância. A adaptação foi difícil, principalmente porque queria trazer os filhos consigo, mas não lhe foi imediatamente possível. Com a constante busca pela legalização, o tempo permitiu-lhe reunir a família que lhe era sua com a que lhe foi apresentada. Não escapou a um preconceito já muito enraizado, que tenta contrariar. "As mulheres brasileiras vêm para Portugal à procura de homens". Esta afirmação não corresponde à sua verdade. Foi o acaso que lhe permitiu encontrar o amor onde antes não pensava existir. E aliado a isso, a segurança deste novo país trouxe-lhe uma nova liberdade. Tudo se tornou uma aprendizagem. Arranjou um emprego que gosta e fez amizades. Começou a aproveitar o momento, sem receios do futuro, mesmo que por vezes ainda se debata com palavras mais ásperas, vindas de uma resposta ao seu sotaque diferente. Às vezes tentam menosprezá-la, apontando-lhe o dedo por se acharem superiores. Mas ela ignora-os. Vive a sua vida como deseja e fica feliz quando vê que a sua família está em segurança, no aconchego de um lar que sempre procurou.


Mulher de 25 anos, a viver em Portugal. É italiana e já é a segunda vez que imigra. Quando perdeu o seu emprego na Suíça, decidiu procurar um novo país e conhecer uma nova cultura, como resposta aos aumentos dos preços exponenciais com que se estava a deparar. Encontrou um emprego remoto e imigrou para onde já tinha amigos, onde não estaria sozinha. Apesar de falar várias línguas, percebeu que a língua portuguesa não era fácil e teve algumas dificuldades de adaptação. A barreira linguística pode ser complicada de ultrapassar em situações particulares, mas arranja sempre forma de se comunicar. Tinha o sonho de ter um limoeiro no seu jardim e aqui conseguiu realizá-lo. Adora contemplar o seu espaço, de se sentir abraçada no ambiente que vive. Critica avidamente a burocracia desorganizada com que tem de lidar. Muitas vezes sente que as pessoas tentam aproveitar-se de si, da sua inocência e ignorância perante novas leis que não conhece. Fica desapontada com a falta de ética no que toca a certos tipos de trabalho, como quando tenta contratar um eletricista ou um carpinteiro e estes simplesmente lhe deixam de responder. Questiona-se se será por ser uma mulher independente ou se será simplesmente uma normalização de uma atitude que não devia de ser aceitável. Apesar de gostar do sítio onde se encontra, deixa as portas abertas para o mundo, para novas experiências que eventualmente poderá encontrar.


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