reflexos da fragilidade.

14-07-2025

reflexos da fragilidade.

Esta instalação artística foi realizada com o propósito de ser um embrião para exemplificar um dos outputs da proposta submetida a este programa doutoral. Com ela, pretendi criar um espaço de reflexão sobre a fragilidade feminina, utilizando a voz como forma de contar experiências de várias mulheres (incluindo as minhas próprias), criando assim uma neonarrativa. Esta narrativa está também refletida diferentes em materiais: espelhos com frases de cada uma destas mulheres, folhas de papel escritas e um espelho de maior dimensão, com uma questão retórica.

Pretendia-se que o público, ao entrar neste espaço de fragilidade, atravessando uma cortina de flores e ouvindo e lendo as experiências destas mulheres, pudessem refletir sobre situações que colocam as mulheres numa situação de fragilidade imposta.


Frágil.
Frágil. Chamam-me de frágil. Menina que sempre abraçou o receio de florescer, mas que se levava ao limite do seu ser. Escondida com timidez, questionava as tradições que teria de cumprir. O de sorrir e de ser frágil. Chamam-me de frágil. Entre os gritinhos de colegas, era o meu diminutivo que se fazia ouvir. E eu estremecia e tentava enterrar em pensamentos quem eu sabia não ser. Não queria ser a eterna menina que julgavam conhecer. Pequena e frágil. Chamam-me de frágil. Segregavam as raparigas em brincadeiras de bonecas, no faz-de-conta que és a mulher que te viu nascer. Sê bela, sê esperta. Sê conquistada por um namorado que pode ser o que ele quiser. Mas não me esqueço que sou frágil. Chamam-me de frágil. E eu ia sorrindo, projetando um mundo que não era aquele no qual estava a viver. Olhava para as outras colegas, e invejava aquela vontade de abraçar. Dos longos cabelos que eu não conseguia ter. Dos risos altos e das histórias que eu não era convidada a ouvir. E eu refugiava-me e sentia-me frágil. Chamam-me de frágil. Em casa, ouvia repetidamente comentários que me menosprezavam, a mim e à minha mãe. Comentários que diziam que eu não era igual aos meus primos, meninos em que a liberdade tinha um significado diferente. Mas a minha liberdade tardava em aparecer e eu era frágil. Chamam-me de frágil. Quis provar a mim mesma que eu conseguiria tudo o que eu quisesse, mesmo quando o meu aspeto franzino me questionava enquanto me olhava ao espelho. E eu renunciava o frágil. Chamam-me de frágil. O brilho dos meus olhos não me deixou desistir, e embalada por uma anestesia de quem ainda lhe falta muito para descobrir, tornei-me numa jovem mulher determinada a aprender. Professores negavam-me esta fé, nunca poderia ser a mulher que sonhava vir a ser. E a arte pulsou em mim, com a forte delicadeza de quem quer contrariar o mundo que proclama que esse não é o lugar desta mulher frágil. Chamam-me de frágil. Duvidam da minha capacidade de ser, de criar, de viver. Num mundo dominado por homens, eu ignorava palavras e piadas das quais não queria ouvir. Piadas em que falavam como as mulheres deviam de ser fáceis, e frágeis. Chamam-me de frágil. No trabalho que ia fazendo, ia conseguindo ganhar a posição que tanto procurava, mas ainda era chamada de menina e depressa me sentia rebaixada. Teria de fazer mais, de ser mais, de me pôr à prova mais vezes. Mas mesmo assim, frágil. Chamam-me de frágil. A simpatia que surgia de mim, estava inerentemente ligada a uma tradição não quebrável. E mesmo quando a resposta era não, o não de nada silenciava as aproximações de quem queria ver-me nua. Física e desprovida de sentimentos. Pois eu era frágil. Chamam-me de frágil. E quando um toque não desejado surgia, na rua ou no meu espaço de criação, eu temia, mas não fugia. Os meus olhos desesperados que procuravam ajuda, envergonhavam-se perante aquele gelo que me fez ficar petrificada no domínio de quem procurava calor. Que davam razão ao ser frágil. Chamam-me de frágil. E eu, mais uma vez, tentava ganhar força no meu sorrir, mesmo quando me silenciavam o meu rir. Até que comecei a quebrar as amarras que me prendiam e comecei a explorar os limites do meu ser frágil. Chamam-me de frágil. E na minha fragilidade, eu aceitei a minha vulnerabilidade. E a mulher, que sempre fui, uniu-se com a mulher que eu sempre quis ser. Encontrei-me no caminho do frágil. Ainda me chamam de frágil. E com o selo profundo da força depositada em mim, abracei o meu lado frágil. Sou humana e sou frágil. E a ti, chamam-te de frágil?

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