o vento.
O vento sopra e faz dançar todos os ramos das árvores que se encontram à minha frente, a violência da dança que corrompe todos os sonhos para dar origem à realidade, crua, fria, cruel. Não há espaço para a imaginação, para a vida plena, para o viver livre. Nada é livre e ninguém é livre. Tudo é demasiado rápido, o acorde de agora já é passado, o momento que foi não volta. O ser que nunca será mais do que é e que nunca conquistará um lugar infinito. Viver nos sonhos, que transforma a realidade em ficção e que provoca o fraco entendimento do que somos, do que existe, do que queremos entender. Estou inerte, porque me movimento num pequeno espaço que é eternamente circular. Os mesmos sítios, os mesmos gostos, os mesmos passos, as mesmas sensações. É tudo o mesmo, ainda que tudo diferente. Uma introspecção do que sou, um sentimento que parece desprender-se de mim. Uma alma mais forte que um corpo, mas que é demasiado frágil para voar, para se deixar vaguear por mundos, espaços desconhecidos. O medo, o maior inimigo dos sonhos. O movimento eterno. A agitação. Não há silêncio. Nunca há silêncio. Um fruto cai algures. Um pensamento foge para dar azo a outro. Tudo é terrivelmente vazio. Toda a agitação que não pára, o sonho que esvoaça. Não sei quem sou. A quantidade de acordes intermináveis, mas únicos. Nunca é possível ouvir dois sons da mesma forma. Eu sou para este acorde aquilo que não serei amanhã. Eu sou aquilo o que sinto neste momento e o resquício daquilo que era ainda há pouco. Eu sou a certeza do agora e, quando este momento passar, eu já serei diferente. A inquietação. O desespero de querer sentir tudo, de absorver a vida de tudo, mesmo não sendo possível. Há a abstração, o momento efémero, a sensação que logo se desvanece. E o que fica é a beleza do sentir e do querer sentir. A ânsia. A ânsia de tudo. A ânsia de conquistar o mundo. A ânsia de ser melhor, a ânsia de ser mais. A ânsia do sonho ser a realidade. O mundo de outrora. O mundo dos sonhos. O meu sonho que é o mundo ideal. O mundo perfeito dentro da imperfeição. O acorde. O adeus. O desespero. O novo sonho. A constatação da realidade. O enterro. O enterro dos sonhos. A comum vida. A vida de ninguém. A ânsia de escrever, de relatar todos os momentos da vida. O registo. A ânsia do registo. O que é registado não é um sonho. O que é registado é um resquício do que era, do que sou, do que já não sou. Tudo começa com o vento. O vento que leva os sonhos. O vento que traz os sonhos. O vento que volta, que circunda o mundo. O vento que atravessa marés, terras e sonhos. O sonho que morreu. O eu que morreu. O eu que não volta, nunca mais. Não há sentido. Tudo é um vai e vem. Tudo. O fim. Há um novo princípio. Há um novo fim. O vento. O vento.
Fotografias e edição fotográfica: Teresa Silva
